NOVAS EVIDÊNCIAS EM RADIOTERAPIA

Após cirurgia de câncer de boca, como decidir se a radioterapia é necessária?

Uma pesquisa com mais de mil pacientes propõe avaliar o risco de o tumor voltar para apoiar a discussão sobre radioterapia após a cirurgia.

Mesmo sem câncer identificado nos linfonodos retirados na cirurgia, alguns pacientes podem apresentar maior risco de recidiva.

O que o estudo investigou?

Pesquisadores analisaram retrospectivamente 1.094 pessoas com carcinoma espinocelular da cavidade oral, tratadas com cirurgia em quatro centros. Todas tinham linfonodos cervicais sem comprometimento tumoral no exame anatomopatológico (pN0). A equipe, da qual participou Gustavo Nader Marta, desenvolveu um nomograma: um modelo que reúne características do tumor e da cirurgia para estimar o risco de recidiva na boca ou no pescoço.

Quais foram os principais achados?

O modelo classificou os pacientes em quatro grupos de risco. Nos grupos intermediário e alto, quem recebeu radioterapia após a cirurgia apresentou menor frequência de recidiva local ou regional em três anos. No grupo intermediário, as taxas observadas foram 19% com radioterapia e 28% sem; no grupo alto, 22% e 38%, respectivamente.

Quais são as possíveis implicações clínicas?

A pesquisa reforça que a decisão não depende apenas de haver ou não linfonodos comprometidos. Tamanho e características microscópicas do tumor, margens cirúrgicas e invasão de nervos, entre outros fatores, ajudam a compor uma avaliação individualizada. O modelo pode contribuir para pesquisas e conversas sobre benefícios e efeitos colaterais da radioterapia pós-operatória.

O modelo já pode decidir o tratamento?

Não. A pesquisa foi retrospectiva; as diferenças observadas não provam que a radioterapia causou todos os resultados. Além disso, a capacidade do nomograma de separar os riscos foi apenas moderada (C-index de 0,66). Os autores recomendam validação independente e prospectiva antes de utilizar essa ferramenta como base para decisões na prática clínica.

Referência científica

Gau M, Su J, Huang SH, Alfaraj FA, Olson R, Marta GN, et al. Nomogram for Risk-Adaptive Estimation of the Locoregional Control Benefit Following Postoperative Radiation Therapy for Pathologic N0 Oral Cavity Cancer: A Retrospective Analysis. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 2026;124(2):328–339. doi:10.1016/j.ijrobp.2025.09.011.

Conteúdo educativo. A interpretação de estudos científicos não substitui a avaliação da equipe assistente.

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